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A grande cidade moderna, assim como o Estado-Nação moderno, são frutos de um mesmo processo: a guerra. Não somente a guerra belicista que visa explorar ou se impor sobre outros Estados-Nações (países), mas também uma outra guerra, gerada por esta primeira, a guerra econômica. Diante da necessidade da burguesia ampliar seu poderio econômico (iniciado e germinado na espoliação mercantilista do século XVI), o espaço geográfico começa a passar por profundas e velozes transformações. As terras camponesas deixam de ser (sob o império da força) propriedades comunais para se tornarem grandes extensões de produção fabril (é o início do agro-negócio) com os chamados cercamentos. Esse processo, em conjunto com a primeira concentração capitalista dos recursos produtivos da história, leva grande parte das populações camponesas para as cidades, para os burgos. Tudo isso só é possível pela ação do Estado Absolutista, o qual é formado sob a circunstância da ameaça dos países vizinhos que a todo momento estavam por invadir e tentar tomar os recursos das nações vizinhas. Não é por acaso que o capitalismo se origina na Europa, pouco espaço compartilhado por tantos povos tornava as tarefas de guerra e de competição econômica constantes. Era preciso formar exércitos fortes, o que só era possível mediante uma economia ainda mais forte que financiasse tais exércitos. Dessa forma, o Estado entra em ação para organizar e impulsionar a economia, fazendo deste objetivo sua razão de existir. Ele, a partir da ação ideológica e repressiva dos setores dominantes que estavam a guerrear é o mecanismo que vai gerenciar o espaço máximo de financiamento da guerra do capitalismo nascente: a cidade urbana. São milhares, depois milhões de pessoas que vão estar submetidas a péssimas condições de existência. Pessoas que foram expulsas de suas terras para servirem de exércitos laborais (trabalhadores) da burguesia e do Estado. Estes não lhe extirpam apenas seu espaço de vida, mas consequentemente sua cultura, suas formas de entender a realidade e de interpretá-la. Isso porque, a sociedade que se desenvolvia logo exigiria de todos uma formação educacional capaz de alavancar o desenvolvimento econômico. Essa forma de educação, por sua vez, ensinaria as pessoas não somente a ler e escrever, mas a ler e a escrever universos simbólicos e interpretativos que impulsionasse a nova ordem estabelecida (da velocidade, do tecnicismo, do progresso da maquina de guerra altamente sofisticada e complexa que estava se formando: o capitalismo industrial). E é no início da formação do capitalismo industrial que surge a utilização da energia fóssil, movida pelo carvão. A utilização dessa forma de energia fará as cidades inflarem e precisarem exércitos laborais ainda mais extensos, pois essas cidades indústrias produziam mercadorias para o mundo todo, metade dele preso aos dentes sugadores do imperialismo europeu. É aí que as cidades se tornam em pontos de convergência, transformando-se em centros da ordem social, cultural e política. Essa nova realidade acarretou uma desmedida exploração do meio natural e uma progressiva degeneração da paisagem urbana. A atmosfera urbana das capitais européias do final do século XIX tinha, ao mesmo tempo, o poder de atração e repulsão sobre o indivíduo. Ela representava a concretização do espírito da sociedade tecnológica instaurada, fazendo parte do processo de massificação global que dissolveu as antigas relações de classe. É o capitalismo industrial então o mestre que concebe as formas modernas do ambiente urbano. Após a conquista de melhores condições materiais e com a bem-sucedida colonização simbólica das instituições educacionais, os exércitos laborais da Europa já não mais se revoltam contra a barbárie do espaço urbano de forma a querer voltar para a vida bucólica do campo de seus avós. Pelo contrário, estes agora se voltam para exigir a constante melhoria dos salários e direitos trabalhistas. A melhoria constante do poder aquisitivo das massas trabalhadoras vai permitir, por sua vez, que a cidade se desenvolva não somente como centro produtor de mercadorias, mas como um mega monstro consumidor. É então que emergimos do capitalismo industrial para a sociedade pós-industrial, que tem no setor de serviços sua principal mola condutora. As antigas indústrias a carvão saem de cena para dar lugar a várias fabricazinhas poluidoras, desejadas e reverenciadas por quase todos os consumidores-cidadãos: os carros. Estas máquinas de guerra são criadas para permitirem a seus usuários alcançarem uma velocidade média superior a quem andasse a pé ou por meios mecânicos de transporte (bicicleta). Possuir um carro era não só sinônimo de status, estar impregnado por valores burgueses, mas possuí-lo foi desde o início uma ferramenta que permitia os trabalhadores autônomos e pessoas de negócios se deslocarem com mais rapidez e com essa rapidez vencer a concorrência. O Estado então percebendo o poder de guerra dessas máquinas e a necessidade privilegiá-las para aquecer o mercado, organiza e gerencia o espaço urbano para a circulação dos automóveis. A partir do automóvel e de sua posterior disseminação como objeto de consumo de massa, as cidades contemporâneas (as metrópoles) se tornam a expressão mais evidente e aterradora de mundo apocalíptico gerado pela guerra militar-econômica do mundo “civilizado”. Poluição sonora, visual e do ar são compartilhadas globalmente. O mundo se encaminha para se tornar um grande estacionamento, com as ruas (o lugar de lazer mais fácil e comunitário das crianças) estranguladas pelos carros assassinos. É a cidade como espaço organizado e gerido para o fluxo de mercadorias e serviços que nos encontramos atualmente. Nela, a vida é descartável e a identidade é desterritorializada, descomprometida com o próprio espaço no qual habitamos. A cidade metropolitana está dessa forma impregnada sob o império de fluxo desprovido de afetos. É um desenho geográfico movido e gerido predominantemente não pela alegria e pela vontade de interação social, mas pela mercadoria e pela impessoalidade. Na cidade os rostos que cruzam nossas calçadas não têm nome e os rostos que têm nome não cruzam as calçadas conosco. A vida na cidade é uma eterna promessa, cada degrau conquistado na escada da pirâmide social (que é objetivo principal dos indivíduos urbanos) é uma alegria efêmera, curta demais para ser saboreada. Isso porque, ascender socialmente é consequentemente se preocupar em não descer, em não ser seqüestrado, assaltado ou morto por aqueles que ainda não chegaram lá. Ascender socialmente, ao mesmo tempo que é uma vitória, é uma perca de tranqüilidade. A cidade sendo este lugar privilegiado da especialização e de fragmentação, de fluxos comandados pelo mercado faz com que as relações entre as pessoas sejam cada vez mais frágeis e efêmeras. Ou se aprende a se distanciar afetivamente das pessoas e dos lugares ou se vive em permanente estado de melancolia. Quem não aproveita as imbecilidades reluzentes da indústria cultural está sob o risco constante da depressão. No meio urbano atual, são intensos os padrões de exclusão e grande parte da população não se reconhece como participante de uma trajetória coletiva, a cidade torna-se objeto de apropriação privatista, da predação e da rapinagem, lugar onde prosperam o ressentimento e a desconfiança. Não há vida razoável possível neste ambiente em que até a infância se encontra sob controle da razão instrumental e da cultura do medo. Para muitos de nós, a infância é um registro de memória com potencialidades libertárias, pois nos faz lembrar de um modo de vida desapegado da visão matemática e calculista da vida adulta, era na infância onde os contatos afetivos se davam de forma mais espontânea e apaixonada, sem as exigências de aproximação mediadas por etiquetas comportamentais ou de vestuário. As crianças de hoje são cada vez mais sós e com isso brincam fascinadas com as fantasias eletrônicas da Matrix . A megalópole é a localização mais aguda em que a riqueza da sobrevivência se manifesta como a pobreza da vida. Nela, estamos sordidamente controlados pelo espetáculo e precisamente governados por atitudes mesquinhas que apenas tentam boiar nesse mar de convulsão mórbida cheio de luzes ofuscantes que cegam os sentimentos e o calor de um abraço. Barulhos que suprimem a sabedoria do silêncio, trajetos sem sentido sob a direção do abismo circulante da dor. Tudo isso nos dá vontade de explodir em grito, um grito disforme e reflexo do que vivemos: um barulho qualquer ensurdecedor e sem significado. Mas não será ao sofá, resignadamente, ou alardeando o fim dos tempos que conseguiremos implodir sua rede de opressão sistemática. É preciso transformar o grito sem significado em sussurros interrogativos a poetizar delírios sobre a vida real. Sendo todo coração uma potência de célula revolucionária, não há revolução possível se não aquela que faça do cotidiano a matéria prima principal para o exercício do extraordinário. |
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A indústria cultural e a razão instrumental
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